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  • Subsídio provoca "efeito dominó" nos combustíveis

    Congelamento do preço da gasolina asfixia setor de etanol, prejudica a Petrobras e mancha a reputação do país.

    No fim de 2007, quando já despontava como um líder global na área de combustíveis renováveis, o Brasil anunciou ao mundo a descoberta de uma colossal reserva de petróleo. Houve quem enxergasse nessa coincidência a prova definitiva da “tese” de que Deus é brasileiro. Pois hoje, menos de cinco anos depois, o país é novamente um importador de gasolina. Sua estatal petroleira acaba de registrar prejuízo trimestral pela primeira vez desde 1999. E a indústria de etanol, cambaleante, só consegue abastecer o mercado interno porque o consumo do produto está em queda pelo terceiro ano seguido.

    Essa “proeza” brasileira se deve à combinação de dois fenômenos: a crise internacional de 2008, que interrompeu os investimentos em usinas e canaviais, e, principalmente, a política de controle da inflação por meio do congelamento dos preços da gasolina. O subsídio ao combustível fóssil deu início a um “efeito dominó” que já asfixia o setor de etanol, compromete a capacidade de investimentos da Petrobras e mancha a reputação do país na área das fontes renováveis de energia.

    R$ 1,83 por litro foi o preço médio do etanol em Curitiba entre 1º e 13 de setembro, segundo a ANP. O valor equivale a 73% do custo da gasolina (R$ 2,51 por litro), que está completando 15 meses como a opção mais econômica para carros flex.

    Quanto mais tempo o governo mantiver o preço da gasolina afastado das cotações internacionais e da dinâmica natural do mercado, mais difícil ficará a recuperação da produção e da competitividade do etanol. Como os dois combustíveis competem pelos mesmos consumidores (os donos de carros flex), maior tende a ser a demanda por gasolina, a importação desse produto e, consequentemente, o prejuízo da Petrobras.

    Abaixo do custo

    A Petrobras está no vermelho, entre outros motivos, porque tem sido obrigada a vender gasolina abaixo do custo. Os dois reajustes autorizados desde 2011 – que, “neutralizados” pela redução da Cide, não chegaram às bombas – não foram suficientes para eliminar a defasagem. Cálculos da União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica) mostram que, no mês passado, a estatal pagou em média R$ 1,53 por litro de gasolina importada, e a revendeu a R$ 1,26 (sem impostos). “A Petrobras está sobrecarregada. É a única empresa de petróleo do mundo que, quanto mais vende óleo diesel [também subsidiado] e gasolina, mais tem prejuízo”, resume Adriano Pires, diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE).

    Para Heitor Gioppo, diretor da Associação Brasileira das Empresas de Serviços de Petróleo (Abespetro), há anos a Petrobras tem “fugido” das boas práticas de gestão. “O sócio majoritário [o governo federal] toma atitudes que seguidamente prejudicam os minoritários”, disse ele em meados de agosto, durante um congresso em Curitiba. Uma das evidências do descontentamento dos acionistas está nos preços das ações da companhia, que caíram 36% desde o fim de 2009.

    Desestímulo

    Para especialistas, a interferência do governo sobre o preço da gasolina não só desestimula o setor sucroalcooleiro como também inibe a entrada de empresas privadas nas áreas de refino e importação de petróleo e derivados. “Se os preços fossem livres, já teríamos atraído uma série de investidores, porque o mercado consumidor não para de crescer. E a Petrobras, sem a preocupação de construir mais refinarias, ficaria à vontade para colocar dinheiro na exploração do pré-sal”, diz Pires.

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